GABRIEL, O PENSADOR, esteve em nossos estúdios conversando com Carlos Garcia sobre a evolução do pop rock Brasil nesses últimos 23 anos, e também falando sobre seu novo disco, “Cavaleiro andante”

Carlos Garcia – Um período que eu considero negro para o Pop Rock Brasileiro foi o modismo da lambada, do axé, do pagode, do sertanejo, sem criticar, mas como toda a onda, todo o modismo massacra tudo e todos. Houve alguns que seguraram a bandeira nos anos 90, o próprio Cidade Negra, Skank, que teve surgimento em 93, Raimundos já em 94 em diante, mas foram poucos, os espaços eram raríssimos, então esse público da Rádio Costa Verde Fm tem uma identificação muito grande com tudo ao que se diz respeito ao Pop Rock Nacional e por isso estamos fazendo esse fim-de-semana especial dos 23 anos do Rock Brasil e você se enquadra, mais do que nunca. Seu surgimento em 93, foi em 92, com “Tô feliz, matei o presidente”, que rolou na antiga RPC, né?
Gabriel: É, aquela música foi em 92, a primeira.
Carlos Garcia: Como a música chegou à rádio?
Gabriel: A gente mandou modesto, porque eu conhecia os caras e teve um que falou,: “Olha, eu conheço o Eduardo Andrews que programa lá na RPC e eu vou mandar pra ele ouvir, só que está muito louca essa letra, essa música é muito doida, não deve tocar não, mas vamos mandar pra lá. Aí ele foi corajoso, pegou aquela letra...
Carlos Garcia: Do Collor ainda, né?
Gabriel: É, do Collor no poder ainda, mas a sociedade já cansada das denúncias todas. E ele foi ousado, falou comigo que ia tocar e ia colocar no ar. Em 5 dias a música foi censurada mas foi muito pedida, ficou em primeiro lugar, foi uma novidade...
Carlos Garcia: Ela chamou a atenção da Gravadora Sony?
Gabriel: Não, porquê as gravadoras são meio “cabeça dura” quando você está começando. Eu tinha essa história da música ter tocado, ter sido censurada, e fui a alguns jornais e revistas e até à MTV, pra falar dela. Quando eu juntei o resto do material que eu tinha e fui mostrar às gravadoras, não tive tanta abertura assim. Também não tinha uma fita demo direito, só tinha letras. Então, na Sony, eles foram mais atenciosos. Foi um cara que nem tinha obrigação de atender aos artistas novos (Sérgio Lopes, do setor internacional), que me deu muita atenção e falou comigo: “Gabriel, você não tem fita demo, você precisa fazer uma pra gente ouvir, sem contrato ainda. A gente vai conseguir o estúdio pra você, nele você vai poder ter os recursos todos pra fazer duas músicas, a gente avaliar melhor e entender melhor o quê é isso que você está falando, que vai samplear, que vai não sei o quê, a gente não conhece bem e vai fazer esse teste! Aí sim que rolou, foi em 93.
Carlos Garcia: Você tem um intervalo de dois e dois anos por obra. Você acredita que os seus álbuns são um retrato do que está acontecendo no momento na sociedade, seja crítica política, social, e se você que eles ficam levando sua carreira do jeito que você quer mesmo, cada álbum leva sua carreira para um lado?
Ao mesmo tempo eu fiquei assim pensando, quando eu ouvi o disco pela primeira vez, estava em São Paulo. O engraçado é que cada álbum seu parece que retrata uma foto Polaroid daquele instante. Isso ficou tão bem costurado, no “Ao Vivo MTV”, como se fosse um álbum só, inclusive um álbum de inéditas, apesar de ter grandes hits ali. Você acha que cada álbum seu é uma Polaroid?
Gabriel: Não, eu acho que isso acontece só em algumas músicas. Tem umas que são mais específicas, falam de uma coisa até datada ou de um caso específico, ou cita assuntos do momento. Eu uso, sim, muitas referências dentro das letras. Há casos que saíram dos jornais ou coisas que a gente sabe. Por exemplo, na música que se chama “Pega Ladrão” tem uma tradução em que o cara está falando da “lista”, “mas eu não vi a lista, não sei o quê e coisa e tal”. Essa música fala daquela “lista” do painel de votação da Câmara dos Deputados. Quer dizer, são coisas e temas do momento! Na verdade os temas, em si, não são presos a uma época e sim, eu acho, à maioria. Então na hora em que eu fiz o “Retrato de Um Playboy-Parte Dois” era uma coisa de um momento. Na música “Lôraburra”eu também fiz um verso sobre o caso da menina que matou os pais, a Suzane. No disco tem coisas que se atualizam com algum detalhe que muda, com algum improviso, mas no geral eu acho que são temas que infelizmente ocorrem: o racismo e outras coisas que a gente pode lembrar. São músicas que marcaram uma época e que até hoje nos shows são fortes, que a galera ainda curte!.

Carlos Garcia: O que você quer ouvir do seu primeiro álbum?

Gabriel: Do primeiro álbum a gente podia tocar uma que nunca mais fiz ao vivo, tocou muito na época, é “175”, vamos matar a saudade dela!

Carlos Garcia: A música “175 Nada especial” é do primeiro álbum (1993). Esse álbum foi produzido por Fábio Fonseca?

Gabriel: Foi, essa foi a primeira parceria legal com o Fábio.

Carlos Garcia: Cortando você rapidinho, Gabriel, me desculpa! Ainda sobre o Fábio Fonseca, ontem nós estávamos produzindo aqui o especial e eu me lembrei de uma coisa, o Fábio fez parte do grupo Cinema Mudo, não fez?

Gabriel: É, o Fábio Fonseca era o vocalista na época. Que legal, nós estamos lembrando de bandas que não poderiam ter passado desapercebidas! Você me perguntou se ele produziu, mas eu quero dizer que o Memê também foi muito importante produzindo a bateria eletrônica, dando idéias. O Fábio acabou assinando como Produtor mas poderia ser uma espécie de Co-Produção naquele trabalho.

Carlos Garcia: - Aproveitando o lance de Produtor, seus três primeiros álbuns foram produzidos por uma pessoa só, o Fábio Fonseca produziu duas vezes e o Memê produziu uma

Gabriel: É, mais o Memê sozinho no terceiro álbum, “Quebra Cabeça” porquê o Fábio produziu sem o Memê com ajuda do Márcio Miranda e o Márcio também foi legal nos arranjos e na programação. E aí o Memê voltou a trabalhar no terceiro disco, ele mesmo produziu nos arranjos, programando.

Carlos Garcia: Uma pergunta que eu quero te fazer: muitas mãos produzindo, você nunca se atrapalhou com tantas mãos? No primeiro álbum o Fábio Fonseca; no segundo ele assinou; e no terceiro, “Quebra cabeça”, e o Memê; do quarto disco em diante você colocou várias mãos. No “Ao Vivo MTV “, Yuka e Liminha

Gabriel: O Liminha é um cara muito fera. A gente é muito cuidadoso, detalhista, então foi legal ter algumas faixas de outras mãos. Isso porquê enquanto a gente caprichou bem em 7 ou 8, tinha lá o Paul Ralph indo para outro estúdio, fazendo outras músicas. Ele mesmo produziu o “Astronauta”, foi produção dele e do Alex. E aí no quinto disco foi importante eu ter conhecido o Idal Shure que é o cara que acabou produzindo esse meu disco agora, o “Seja Você Mesmo Mas Não Seja Sempre o Mesmo”, junto com o Liminha. Ele fez as músicas, e eu fiz as letras. O Idal é um americano que fala muito bem o Português mas não pra escrever letras. Ele ganhou um Grammy como compositor do Santana. Ele é muito bom compositor, músico excelente, produtor também, quando ele produziu o meu disco eu já adorei! Mas ele evoluiu ainda mais de 2001 para cá na sonoridade. Mais as coisas que ele estudou, a qualidade do estúdio que ele tem, os músicos que a gente pôde chamar. Eu fui gravar em Nova Iorque esse álbum, gravei lá e parte aqui também.

Carlos Garcia: Eu lembro que em 1995, quando você fez um show para a Rádio Costa Verde FM em Sepetiba, rolou a música FDP “Filho da Puta”. Como você lidou com a dificuldade comercial e de execução do disco “Ainda é Só o Começo”, traçando um paralelo com o disco seguinte (o mais vendido), “Quebra Cabeça”?

Gabriel: Foram um milhão e quinhentas mil cópias, eu nunca sei direito ao certo mas esse foi realmente o maior faturamento. O maior sucesso que não tinha dado certo comercialmente mas que a galera se amarra, que eu também gosto, que é “Ainda é Só o Começo”. Mas realmente FDP é uma música cheia de palavrões, tinha muitas chances de não tocar de modo algum nas rádios.

Carlos Garcia: Nós colocamos a música como fundo para criticar aqueles testes nucleares que a França Vinha fazendo. Colocamos como música de fundo e em dois dias FDP já era a música mais pedida da programação da Rádio!

Gabriel: O que é isso, que Legal! Interessante saber desse detalhe, não sabia que tinha tocado aqui! Legal vocês atenderem à galera e tocarem a música porquê nas outras rádios o pessoal pedia e as rádios não rolavam!

Carlos Garcia: O que poderíamos ouvir desse álbum, “Ainda é Só o Começo”? Mas antes de escolher, você tirou algum proveito das dificuldades do “Ainda é Só o Começo”?

Gabriel: Ah, em nunca parei pra pensar numa resposta sobre isso, mas com certeza é válido. Melhor do que todos os discos darem certo foi conhecer esse lado, com uma turnê mais fraca, um disco que não tocou. Isso apesar de a gente ter uma gravadora forte, que ainda trabalhou em dois clipes. A gente ainda trabalhou “Estudo Errado” e “Rabo de Saia”. Na época foi legal, não passou batido, mas não foram músicas que marcaram para a carreira, comercialmente. Pra alguns fãs até marcam bastante. Voltando à que música vamos escutar, eu sugiro “Como um Vício”, música que fala do hip hop. Ela foi gravada com Leandro e Neurose. O Leandro produziu uma faixa desse meu novo disco, eu lembro que o Leandro era um rapper ainda moleque, naquela época, e hoje está produzindo muito bem, compôs comigo uma música do disco novo chamada “Tudo na Lente”, e produziu.

Carlos Garcia: No primeiro disco você não tem samplers e no segundo você abusou de Sound Garden, Mutantes, Rita Lee, Gilberto Gil, Azimuth. Gabriel, você não acha que abusou muito?

Gabriel: Teve uma época em que dei uma maneirada, depois do disco “Quebra Cabeça”. No primeiro álbum teve samplers mais de citações, tipo “cale-se”, tinha uma frase, uma coisa mais marcada. No terceiro álbum rolou bastante coisa.

Carlos Garcia: No seu primeiro álbum só teve Scrapt na faixa “Retrato de um Playboy” né, só de guitarras...

Gabriel: Isso, de guitarras. Mas no segundo disco teve esse lance do Leandro, que nós vamos ouvir, e o Tito, que participou da turnê e cantou FDP comigo.

Carlos Garcia: Vamos falar de “Quebra Cabeça”? Marcelo Memê produzindo, Lulu Santos, Blitz...

Gabriel: Você lembra melhor do que eu, tô impressionado! Eu sou meio aéreo, acabei de fazer esse novo disco e fico meio aéreo. Mas é bom lembrar!.

Carlos Garcia: Lembro que teve um lance de uma crítica, sobre a importância que ele tinha para aquele momento atual da Rádio Jovem...

Gabriel: Eu queria falar nesse especial do Pop Rock Brasil sobre aquele disco, o “Quebra Cabeça”. Eu acho interessante o que eu faço, no geral! Nós sampleamos James Brown, só funk, e eu misturei lances diferentes como Blitz, Cazuza e rolou uma identidade do tipo “pô, o cara faz rap e hip hop mas entra muito mais nesse universo do Pop Rock. Tem um ecletismo que eu acho legal, a gente consegue identificar quem está na mesma onda, seja um cara mais roqueiro ou seja, o pop do Skank, ou um cara que faz rap mas está com as mesmas referências! Acho que aquele disco marcou um pouco isso! O segundo tinha o Tito e o Leandro que eram os rappers participando e desse eu trouxe outras coisas que fazem parte das minhas raízes musicais que a gente citou anteriormente.

Carlos Garcia: Esses caras, Legião Urbana, Lulu Santos, tiveram importância para você, que estava crescendo?

Gabriel: A própria Blitz porquê eu gosto de um som descontraído, irreverente, eu gosto de brincar nas músicas e a Blitz eu sempre curtia muito! Fora isso, Paralamas do Sucesso, Titãs, Lobão...

Carlos Garcia: Picassos Falsos, lembra?

Gabriel: Lembro!

Carlos Garcia: O que mais você lembra desses 23 anos do Pop Rock Brasil?

Gabriel: Capital Inicial, Plebe Rude...

Carlos Garcia: Inclusive o guitarrista do Picassos Falsos tocou contigo, não tocou?

Gabriel: É, o guitarrista Gustavo tocou muito tempo comigo!

Carlos Garcia: Vamos ouvir o que desse terceiro álbum?

Gabriel: Ah, vamos curtir “Bala Perdida”, que tocou muito!

(...)

Carlos Garcia: A partir do terceiro disco você começou a entregar seus álbuns em várias mãos...

Gabriel: É, mas eu estava bem centrado na parceria com o Liminha nas músicas.

Carlos Garcia: Mas você sempre foi um bom moço, e estava de saco cheio de Axé, Pagode, de Bunda de fora...

Gabriel: Não, só que a cultura toda voltada para isso dava aquilo que você falou. Quando um modismo é igual fica cansativo. E sem querer achar que aquilo tudo é crime, uma banda de axé não é nada mal, mas eu criticava os excessos da exploração das mulheres e o exemplo disso como cultura. Então a gente fez uma crítica na capa e mais que isso, eu gravei com a Fernanda (Abreu) no “Nádegas a Declarar”. Cada um tem sua liberdade de criar, trabalhar, eu já até toquei com o “Ë o Tchan” na Bahia. Eu não sou um cara radical como o Lobão que chega detonando! É o meu jeito, mesmo, não sou dono da verdade. Então faço críticas medidas e conscientes.

Carlos Garcia: Você acha que o teu público cresceu contigo?

Gabriel: Interessante, tem uma galera que me acompanha desde cedo...

Carlos Garcia: Como você acha que eles encaram o fato de você convidar Adriana Calcanhoto, Lenine, Daniel Gonzaga, convidar o Barão Vermelho, Detonautas, Blitz. Tudo bem, tem a ver, porquê eu não te encaro como hip hop, te vejo como Pop. Mas como o pessoal te encara assim, quando você chama Daniel Gonzaga, Adriana Calcanhoto, até mesmo o Moreira da Silva? Porquê quando você chamou não estava nessa onda de exaltar gueto, o samba marginal que está tendo agora!

Gabriel: Não, era outra idéia, Era misturar, até eu fiz uma música dele. Na verdade duas: uma era “O Amigo Urso” e a outra “A Reposta do Amigo Urso” e não era assim nada planejado como marketing e também não penso também como é que o público vai encarar, são coisas que eu curto.

Carlos Garcia: E como é que você vê isso na sua carreira?

Gabriel: Eu acho que a galera vê mais o resultado daquela música, então por exemplo “O Brasa” é uma música que é bem longa, bem louca, não cabe no show. Ela é com Lenine, e muita gente gostou. Principalmente a galera que mora fora ou já morou fora entendeu bem a onda, a dúvida se tem vergonha do Brasil ou se morre de saudades mesmo. O cara que vai morar fora (eu nunca morei fora, mas tive a oportunidade de viajar). Então a gente observa as coisas, de longe, vê tanta coisa boa que a gente só tem aqui e também tanta coisa que poderia ser muito melhor. E eu chamei o Lenine justamente por ele ser um cara que viaja muito para fora e também pela brasilidade musical dele. E vou fazendo assim, nesse disco agora veio a Negra Lee, Detonautas, Adriana. Com a Adriana Calcanhoto foi uma participação muito bonita mas quando ela foi chamada a música já estava feita. Ela só veio interpretar comigo, uma música que a gente lançou já em Portugal e não tinha lançado no Brasil ainda, é a música “Tás a Ver”. Tem um videoclipe no cd, é o que o Estêban dirigiu junto comigo. Esse clipe não vai ser trabalhado, quem quiser assistir põe no computador e assiste

Carlos Garcia: Vamos ouvir o quê?

Gabriel: Cara, põe a música do Cantão que é a música que fala de uma época da minha vida, inclusive há um cara que faleceu recentemente, e o Bila. O cara que morreu não tem nada a ver com a violência, a morte dele foi problema de saúde, ele era um cara muito querido da gente, ele era um bodyboarder , e ao Valtinho, que faleceu num vôo de asa delta.

(...)

Gabriel: Até fiz um lance com o IRA, no Altas Horas Especial de São Paulo, no Aniversário de São Paulo. Eles montaram a música “Feliz Aniversário, Envelheço na Cidade” e eu mandei uma letra que eu tinha feito só pra isso lá!

Carlos Garcia: No disco “Seja você Mesmo mas não Seja Sempre o Mesmo”, você não acha que o Liminha não se empolgou muito nesse disco?

Gabriel: Você sabe que o Liminha é baixista, mas ele estava empolgadão com as guitarras, ele é fera! Ele se empolgou, sim, mas eu gostei, porquê essa parte mais Rock n’roll quando a gente toca ao vivo é o bicho, me amarro, mas quem começou com aquele disco ali, com o rock foi o Ital, que é esse produtor que a gente falou antes, que produziu o meu disco novo, “Seja Você Mesmo mas não Seja Sempre o Mesmo”. Foi o “Até Quando”, a primeira música que caiu pro rock. E uma curiosidade, é uma das minhas músicas preferidas e dos fãs também, marcante na carreira e ela não estava entre as letras. Eu não estava prevendo gravar aquela música e um dia o Ital comentou: “Pô me mostra mais umas coisas aí, com uma métrica diferente, com mais espaço” e eu falei: “Tem essa aqui, Não Adianta olhar pro Céu” que tinha uns espaços que não eram comuns na minha maneira de escrever, ele gostou e começou a fazer o lance do piano, eu nem imaginei que ele estava pensando em rock, em guitarra suja. Ele pediu pra botar a guitarra e eu fiquei animado com a música. Eu gravei emocionado também porquê eu estava querendo desabafar muita coisa mesmo, do Brasil, com Jader Barbalho, Antonio Carlos Magalhães, aquelas coisas todas rolando e aí sendo a primeira aparição do nosso rock ali, era o Liminha.

Carlos Garcia: Qual dessas músicas teve a participação dos Raimundos, ou só do Digão?

Gabriel: Eu tenho o clipe dessa música, mas é só o Digão com o Bacalhau (batera do Rumbora). Ele fez uma música comigo e arrebentou na bateria. Ela fala sobre drogas e eu fiz também algumas frases com alguns conceitos de um psiquiatra amigo meu, Merinho Pereira, e ele entrou também como autor da música. O clipe foi dirigido pelo Oscar Rodrigues Alves que é o mesmo que dirigiu “Até Quando”.

Carlos Garcia: Nesse intervalo de dois anos você teve bastante tempo para pensar no que ia fazer, não?

Gabriel: É, apesar de eu me dedicar bastante às turnês, tive tempo de escrever, de selecionar mais as músicas. Não vou dizer que as pessoas façam isso de propósito, mas acabam lançando discos que tem algumas músicas que parece que o cara fez sem interesse, algumas caprichadas e outras de qualquer maneira! Eu dou importância e o mesmo peso a cada faixa, e, se vacilar na última hora e eu não estiver satisfeito com uma música eu refaço porquê não quero me envergonhar depois! Vamos ouvir “Tem alguém Aí”, que a gente comentou, com o Digão e com essa galera!

(...)

Carlos Garcia: Gabriel, Ao Vivo MTV, teve receio?

Gabriel: Não, eu estava empolgado, foi uma época em que os “Ao vivo” estavam sendo bem-feitos. O cara que ia dirigir o DVD também era um cara esperto, gostei dos papos que eu tive com ele, da linguagem que a gente tentava fazer; receio não, mas eu tive dificuldade pra selecionar as músicas, “O que vai representar cada época, cada disco...?”

Carlos Garcia: Você não deixou nem um disco de fora?

Gabriel: É, eu peguei um pouco de cada e acabei me empolgando com a idéia de recriar as músicas, de fazer arranjos novos, mudar os instrumentos, que era até uma necessidade. Eu mesmo ouvi minhas músicas de outra maneira, todas foram tocadas de uma forma bem diferente, bem mais elétricas, diferentes das originais. Eu querendo também fazer alguma coisa nova, sabia que os fãs estavam querendo e há dois anos não pintava novidades, eu coloquei três inéditas, uma com Yuka e Liminha. O Yuka produziu duas faixas e o Liminha assinou a produção do disco, mas o Perna Cepas foi muito importante. Foi o cara que produziu “Tás a Ver”, coordenou muito bem os ensaios, principalmente na parte acústica dividindo as funções com Liminha, assinou a co-produção de algumas faixas...

Carlos Garcia: É verdade que no “Ao vivo MTV” você só se sentiu mais à vontade no segundo dia, que “era só o povão”?

Gabriel: Acho que não foi muito por causa do público porquê eu não faço distinção. Mas sabe, no primeiro dia era curtição, muitos convites pra rádios comunitárias, foi o bicho. E no segundo dia de gravação foi diferente. Eu rendi melhor porquê já tinha passado as músicas todas no primeiro, já tinha visto que as novas tinham sido mais pedidas como “Retrato de um Palyboy Parte Dois”. Uma música que já era um clássico da minha obra, eu falei: “Bom, vou fazer Retrato de um Playboy Parte Dois”, tem gente que pode não gostar, mexer com alguém. Aí, quando eu cantei a galera mandou “de novo, de novo”, e eu vi que no primeiro dia tinha rolado bem! Mas o que valeu mesmo pra gravação foi esse segundo dia!

Carlos Garcia: Como é que surgiu o “Cara Feia”?

Gabriel: E essa sim é uma daquelas que você falou que são retratos de um momento. Ela fala de uma mudança na política, de uma entrada do Lula, que se aliou a uma corja de políticos que é difícil de aturar. Eu acho que essa musica ainda é simbólica para o Brasil assim como acho que simbólico o Lula ter chegado lá, a gente deve se orgulhar disso pra sempre, independente do que seja o resultado do governo dele.

Carlos Garcia: Eu também acho que não é assim “agora chega”...

Gabriel: É, não é assim que o Lula vai resolver os problemas, e ele assume muito esse lado que cai no tempo do Populismo. Eu não gosto do estilo de Chaves e outros amigos dele, eu não sou dessa onda, eu acho que tem algumas críticas que são coerentes, como o João Ubaldo. Mas nessa música eu estava criticando uma Postura Elitista, aí sim eu fazia críticas ao Lula por ele ter vindo do povo, ser pobre, etc, ai é que eu acho que era preconceito mesmo.Nessa música eu falo de preconceito, falo de fome, de cara feia, porque tem gente que fazia cara feia pra isso enquanto as outras opções também já estavam esgotadas, A que foi uma aposta bem-feita para mudança no rumo da política., Infelizmente não mudou tanto assim como a gente pensava.

Carlos Garcia: O que vamos ouvir então do “Ao Vivo MTV”?

Gabriel: Cara, vamos rolar “Mandei Avisar”, do Marcelo Yuka, um abraço pra galera do F.U.R.T.O, um novo trabalho...

Carlos Garcia: Eles estiveram aqui cara, essa semana, gravaram também uma participação nos 23 Anos do Pop Rock.
(...)
Carlos Garcia: Cavaleiro Andante, o primeiro single foi muito bem nas rádios, começando a gerar pedidos. Mas.Antes disso eu queria que você falasse, pra registrar, duas músicas que te marcaram nesses 23 anos, desde o surgimento de Blitz, Legião, Paralamas, Uns e outros, Nenhum de Nós... Tem duas musicas que te marcaram e trazem boas lembranças?

Gabriel: Caramba, isso é difícil demais,cara !

Carlos Garcia: Você tem uma lembrança do seu primeiro contato com rádio?

Gabriel: Não, mas eu posso falar do Ultraje, a gente pode rolar aí o Inútil, do primeiro álbum, Nós Vamos Invadir a sua Praia. Foi uma das bandas que me mostrou como se pode fazer críticas com humor e eu achava legal isso deles e acho até hoje. E outra música...Podia pegar uma do Legião, estou trabalhando a música Pais e Filhos, que é uma das minhas preferidas.Uma coisa também que eu curti muito, até pela minha linguagem, porquê eu já gostava de hip hop, das letras, foram Eduardo e Mônica e Faroeste Caboclo que também marcaram pra caramba!

Carlos Garcia: Gabriel, eu queria te perguntar sobre o novo álbum: quando é que ele vai estar nas lojas, se o clipe já está pronto, porquê nós recebemos e-mails de ouvintes querendo estar aqui...

Gabriel: O clipe saiu essa semana, quarta feira, Oscar Rodrigues Alves e o Nando Cunha dirigiram “Palavras Repetidas”; e o disco está marcado para sair da fábrica dia 30 agora, indo pras lojas. F bem louco gravar fora, com alguns compromissos aqui, eu fui e voltei, gravei parte aqui, mixei lá em nova Iorque, tirando duas músicas que foram feitas aqui. E a sonoridade que a gente buscava com a masterização lá, também, a batida eletrônica, sampler, as coisas que no “Ao Vivo” eu não usei. Eu quis puxar o som assim, ao máximo, e valeu à pena! Gostei pra caramba! Sem falar da parte das letras que eu sempre curto fazer. Mas o trabalho desses caras, dos técnicos que tiraram esse som, dos produtores e dos músicos, pó, nota dez!

Carlos Garcia: Vamos rolar “Palavras Repetidas’. Gabriel, o Pensador, muito obrigado pela força de sempre e pela parceria com a Rádio Costa Verde FM, por ter acreditado na nossa programação. Quando a programação tinha três meses você já estava fazendo um show com a gente, lá no Luso, foi um show importante pra afirmação da nova cara da Rádio. É a primeira vez que a Rádio segmenta sua Programação, que eu vejo como um caminho do rádio FM. O rádio tem que ter uma nova postura e eu acho que uma postura VIBE da Costa Verde Fm, e eu queria te agradecer!

Gabriel: Eu é que agradeço aí, parabéns, que vocês mantenham a identidade, também me dão a maior força, então a força é recíproca. Espero que agente continue essa parceria, com muitos discos e muitos anos de Rádio também!

Carlos Garcia: Valeu, esse foi Gabriel, o Pensador, na Costa Verde Fm! ?