Entrevista com Lulu Santos

Carlos Garcia: 91,7 Costa Verde Fm, a Rádio que tem a Cara do Rio, tudo bem Lulu?
Lulu Santos: Vou muito bem, obrigado, e você?
Carlos Garcia: Ótimo!
Lulu Santos: Obrigado pelo convite!.
Carlos Garcia: Lulu, você sentiu muita diferença? A primeira vez em que você se auto-produziu foi no disco Normal, de 1985. Até então você só tinha passado por um produtor, o Liminha, nos tres primeiros álbuns. Treze anos depois, depois do disco Mundo Cani, seis produtores depois, você volta à produção. E ouvindo o seu disco inteiro, nesse final de semana, eu senti uma segurança incrivel e absurda de tudo o que está se fazendo ali. Rolou isso, por ter passado por 6 produtores, 9 discos depois, de Mundo Cani, essa segurança vem daí?
Lulu Santos: Acho que sim, em retrospectivas, no Disco Normal, estava muito inseguro, foi o primeiro disco que eu produzi. Só fui descobrir a minha insegurança depois que eu vi o disco pronto, cortado, eu descobri que cometi uma série de erros técnicos que a rigor, eu costumo dizer que prá você produzir um disco tinha que Ter carta de habilitação, sabe como é? E eu bati em “ alguns postes” com aquele disco, sobretudo na última etapa do corte, o corte ficou espirrado, o disco foi cortado nos Estados Unidos com um padrão que a indústria fonográfica não usava no Brasil. Enfim, de lá prá cá se voce contar o disco Normal saiu em 1984, faz justamente 21 anos, e eu hoje sei o que estou fazendo, eu aprendi muito! Desses seis produtores que você listou com certeza eu aprendi muito vendo essas pessoas trabalharem!
Carlos Garcia: mas isso também passa pela produção dos outros não? O Lulu, por exemplo, que é um dos meus discos prediletos, é de 1986, você já acertou a mão não só pelo sucesso comercial não é? Aquele álbum, até então, foi o seu maior sucesso, deu 200 mil cópias, aproximadamente?
Lulu Santos: Na verdade tinha uma coletânea que vendeu 800 mil copias, foi o disco Último Romantico. Foi a primeira vez em que ganhei Disco de Ouro. Até teve uma tentativa de me darem Disco de Platina que eu não quis receber porque o disco tinha vendido menos que 250 mil copias.
Carlos Garcia: Foi no Maracanãzinho no aniversário da Revista Bizz, você negou em cima do palco, voce disse que não queria no palco?
Lulu Santos: Não, eu falei antes que eu não achava justo enganar alguém dizendo que eu havia vendido 250 mil cópias se eu tivesse vendido 220 mil cópias, entendeu. Na realidade era besteira, prá marcar uma posição provavelmente com alguma gerencia de gravadora com a qual eu não estava me entendendo e ao mesmo tempo bobagem mesmo, um pouco coisa de iniciante..

Carlos Garcia: Lulu, nesse disco você tem uma música, “Gambiarra” , que você disse ter escrito há 10 anos?

Lulu Santos: Gambiarra é de 10 anos atrás mas Dim-Dom, que é uma das últimas músicas do disco, acho que é a décima-segunda musica, tem 28 anos, tem ainda mais tempo! Então eu acho que isso é privilégio de quem faz um calendário cumprido assim. E Gambiarra coube nesse disco, o “Letra & Músicas”

Carlos Garcia: E de onde vem isso, de você guardar uma música dizer “ agora é o momento”

Lulu Santos: Do nada, olha você quer saber? Eu comecei a gravar no estúdio com o Chocolate, Negão, que era quem estava gravando as bases, na verdade sou eu, Chocolate, Negão e Hiroshi. Na verdade saiu tão fácil, tão coerente, que eles encontraram um groove em pouco tempo, em 15 minutos eu havia fechado a canção. Naquele momento, era a primeira ou segunda semana de gravação, a gente ainda estava experimentando, mas tem coisas que jamais virão à luz, que serão gravadas, eu nem me lembro mais o nome porque o que eu fiz era prá compor um repertorio decente prá esse disco acabou que a gente experimentou, mas saiu tão tenso, tão chato que eu disse esquece. Já Gambiarra, o fato de ela ter ficado dez anos na minha memória, voltando prá mim, é porquê ela significa alguma coisa.

Carlos Garcia: Prá todos é uma música tão atual! É como se você tivesse feito para o que está acontecendo agora!

Lulu Santos: Porque parece que a canção faz uma crítica dessa cultura de celebridades instantaneas, mas na realidade não é isso não, é uma conversa que eu tenho comigo mesmo de o quanto é, da pessoa privada ou pessoal que você é, o quanto desse potencial você abre mão prá pessoa pública, quanto você tira da pessoa privada prá pessoa pública. Na realidade o ideal é você estabelecer um equilibrio que você fique bem no meio artistico nem depois possa reclamar como Michael Jackson, por exemplo, que a gente ouve ele dizer que nunca teve uma vida normal, porque sempre trabalhou a vida inteira. Talvez ele, quando era criança, não tivesse oportunidades de fazer essas escolhas, talvez tenham feito essas escolhas para ele! Mas no caso da gente cabe à gente saber o quanto da sanidade pessoal a gente quer manter em relação á necessidade de Ter que se promover.

Carlos Garcia: Vamos ouvir? 91.7 Costa verde Fm a Rádio que tem a cara do Rio. Pela primeira vez Lulu Santos nos estúdios da Costa Verde Fm, essa música, Gambiarra, abre o novo disco do Lulu. Agora tem Gambiarra na Costa Verde Fm.

Lulu Santos: Do disco Letra & Música!

Carlos Garcia: Letra e Música é o novo cd do Lulu Santos, cd que vem depois de um Ao Vivo Mtv. Agora falando em Acústico como você se sente bem nessa parceria com a MTV não, tão belos, tanto o Acústico quanto o Ao Vivo, eu tive o prazer de estar nos dois dias de gravação no Claro Hall, é aquele clima mesmo de liberdade total, Mtv é isso?

Lulu Santos: O caso do Acústico é um pouquinho mais engessado porquê eles têm um formato fixo que é determinado pela Companhia-mâe deles, que é internacional, mas você tem um formato muito fixo, tem padrôes de cenário, de iluminação, e de várias outras coisas que têm que ser seguidas, já o Ao Vivo é apenas o espetáculo da gente eles fazem um pequena correção para ter a claridade necessária para a televisão mas não tem nada que não tenha sido engendrado pela gente

Carlos Garcia: Você não acha que a música Sem Nunca dar Adeus, a única inédita do Projeto Ao Vivo já não estava dando o novo caminho que seria o disco Letra & Música?

Lulu Santos: Possivelmente, porquê já vinha numa direção com coisas feitas com guitarra elétrica, acho que sim porquê na realidade Letra & Música absorve muito as coisas que acontecem com a gente quando a gente tem que tocar e é isso que é o Ao Vivo Mtv, é o espetáculo da gente. E no espetáculo eu toco guitarra o tempo todo. Mesmo nos meus discos como por exemplo em Bugalu em que a guitarra toma um papel mais secundário, em que ela quer ser apenas mais uma integrante do que está tocando aquele arranjo porque eu nâo tenho um disco na característica rock de uma forma frontal, mesmo assim guitarra é o que norteia tudo aquilo, as canções são todas feitas em guitarra e violão. No caso desse disco o espaço do som da guitarra é muito mais amplo e isso vem na sequencia depois do cd Bugalu, fiz dois anos inteiro de espetaculo que resultou um ano depois ou um ano antes de agora no disco Ao Vivo Mtv.

Carlos Garcia: Essa coisa “rocosa” que voce fala, Lulu santos?

Lulu Santos: Ou “roquenta” como queira!

Carlos Garcia: Parece que toda a vez em que você vai produzir seus discos, como Lulu, Normal, o Mundo Cani, ou Honolulu, a guitarra não fala mais alto nesses álbuns, toda a vez agora é comigo?

Lulu Santos: Mais ou menos porque o Pop Sambalanço e Outras Levadas é um disco que já tem essa coisa de colocar a guitarra dentro de um plano mais geral e é um disco dedicado á idéia de que você pode fazer pop contemporâneo, com música popular brasileira e isso em 1989 não era uma linguagem muito comum, as pessoas não abraçavam com tanta facilidade como hoje!.

Carlos Garcia: Como é que você analisa se há erro? Por exemplo eu estou com 30 anos e estou na minha quinta rádio e já teve rádio em que eu passei que eu falei “pôxa como é que eu fiz isso”?

Lulu Santos: Mesmo nos momentos mais dificeis você tira lições daquilo.

Carlos Garcia: Desculpa eu te cortar, mas você não acha que foi apenas um momento errado, se esse disco saísse em 1992 ou 93, o Pop Sambalanço?

Lulu Santos: Pop não tem isso, pop é na hora, tem um prazo de validade certo, tanto que se você desejar conhecer hoje o disco Pop Sambalanço, você vai Ter muita dificuldade de comprar porque ele não permanece em catálogo nem tem material a venda. Então é uma coisa que é um certo privilégio da gente, porque se amanhã a gente quiser lançar uma caixa vamos dar possibilidade de as pessoas comprarem coisas que nunca tinha ouvido antes, ou recordarem algumas músicas.

Carlos Garcia: Você não acha que essas coletaneas atrapalham, igual nós falamos aqui, de 800 mil copias, do disco O Ultimo Romantico, que a Warner lançou, na época no auge do disco De toda a Forma de Amor, Ne? Foi lançada essa coletanea em 1987, você acha isso saudavel?

Lulu Santos: foi um pouco antes de 87, foi a primeira vez que eu experimentei o gosto de 800 mil copias, tanto no bolso quanto ali, na listagem. Não, não faz porquê o píor que pode acontecer é acostumar muito as pessoas. Uma vez eu tive esse diálogo, eu estava dirigindo, andando de carro, veio uma menina com o namorado emparelhou com o meu carro, olhou prá mim e disse “aqui tem seu disco novo”, e era uma coletanea, a música mais nova que tem aí tem oito anos, e ela respondeu “mas essa é que é a boa”! A coisa mais dificil, talvez seja o material novo competir com tudo isso que já ficou consagrado. Por outro lado, essas coletaneas, sozinhas, venderam algo quase em torno de 3 milhoes de discos.

Carlos Garcia: Bom, deixando as coletaneas de lado, Lulu Santos, o que você gostaria de ouvir aqui na Rádio Costa Verde, ainda não Pop Star, vamos deixar essa música prá encerrar o nosso bate-papo, mas o que você quer ouvir do disco novo?

Lulu Santos: O que eu acho que possivelmente vai ser a minha próxima música de trabalho, se fosse só a minha opinião já era a música se chama Vale de Lágrimas

Carlos Garcia: Lulu, você acha que vem de quê, é feeling? Você escreveu prá Som Tres, prá revista? O fato de você Ter escrito prá revista ou Ter produzido trilhas prá novelas? Você pode falar que é a “experiência” porquê você, em 1987, quando você estava com a turnê do álbum “Toda a Forma de Amor você” passou pelo Festival de Montreux, na Suíça, não passou? .

Lulu Santos: Foi em 1988, eu fiz um show lá no Festival dentro da Noite Brasileira.

Carlos Garcia: Carlos Garcia: Você não gostou? Porquê até então você foi o primeiro a quebrar isso todos os artistas que passaram desde que a Noite Brasileira foi criada gravaram discos lá e você não, foi lá, depois gravou em Sâo Paulo “Amor à Arte”. Teve também quando te chamaram prá gravar um álbum só de versões, teve o sucesso “De Leve” não foi isso?

Lulu Santos: Não isso foi muito no início da minha carreira quando eu estava sendo dispensado da gravadora Warner. Depois dos tres primeiros compactos e no momento em que a gravadora resolveu me dispensar eu era o autor da música mais executada no Brasil que era “De Repente California” aí eu fui perguntar pro diretor Heleno de Oliveira, um sujeito sério, um amigo que eu tive na indústria fonográfica, não está mais o ramo porquê não tem mais saco tem mais o que fazer na vida, mas eu fui sentar com ele e disse “tudo bem, voces querem me dispensar” agora vem cá, porquê é que voces estão dispensando o autor da canção de maior sucesso no rádio atualmente? Ele então falou você grava “De Repente California” e eu respondi claro, sem problema nenhum. Você grava outros covers? Porque que eu vou gravar outros covers se eu sou o autor dessa canção, vou gravar outras canções desse mesmo autor. Aí disseram, está bom, vai lá e grava, foi assim que nasceu meu primeiro disco, “Tempos Modernos”.

Carlos Garcia: E no festival você achou melhor gravar aqui no Brasil?

Lulu Santos: Nunca me foi proposto que gravasse aquilo não. Eu acho que era Gil, Elis Regina, a Warner tinha essa coisa de gravar os festivais e os shows, a verdade era essa e na época eu estava na RÇA que é a avó, vamos dizer assim, dessa gravadora que eu estou agora, a SONY/BMG!

Carlos Garcia: Esse é Lulu Santos aqui na Costa Verde. Lulu, e as parcerias hein? Essa é sua primeira incursão ao gravar? Você já gravou Gilberto Gil, Caetano, Jorge Maltner, teve Milton Nascimento , mas é sua primeira incursão em regravar alguém do pop-rock?

Lulu Santos: É, acho que sim!.

Carlos Garcia: Na época voce gravou Marina, com Fulgaz

Lulu Santos: É mas a Marina é mais fronteiriça, fica entre o pop-rock e a molecada dos grupos. Mas eu não acho que o que a Marina fazia muito diferente do que eu propunha no meio da década de oitenta, eu achava até que tinha um certo encontro porque eu queria escapar um pouco da gravidade da atmosfera pop-rock, experimentar outras coisas e por outros lados e talvez trazer isso de volta prá dentro dessa atmosfera. Mas eu já regravei o que eu acho que não é pop-rock mas eu acho que é popíssimo que é “De leve”, que foi a minha primeira música de trabalho, foi um cover da Rita Lee e Gilberto Gil. Mas eu acho que o cover que eu mais popularizei ao ponto de as pessoas chegarem a confundir com uma composição, como se ela fosse minha, é “Descobridor dos Sete Mares"

Carlos Garcia: Esse é Lulu santos na Costa Verde Fm, a Vibe do seu Rádio. Ele está lançando seu disco novo, “Letra & Música”. Lulu, vamos ouvir mais uma do disco, qual a que você escolhe?

Lulu Santos: Vamos ouvir “ A Roleta’, que é a segunda música do disco

Carlos Garcia: Lulu, esse é o nosso eslogam dos dois anos de nova programação, a “Vibe”, a verdadeira vibração. Lulu Santos com o vigésimo disco, sendo 17 de estúdio e 3 Ao Vivo. Você ficou feliz de Ter gravado o Ao Vivo Mtv no Rio, você acha que foi bacana, contribui pela atmosfera, sem bairrismo, pelo primeiro Ter sido gravado em Sâo Paulo?

Lulu Santos: Não, o primeiro não foi gravado em São Paulo. Ih Carlos, você sabe mais da minha carreira do que eu. O Amor a Arte é um disco que eu tento realmente esquecer, aquilo não foi um bom passo, porquê eu estava extremamente gripado quando eu gravei o disco. Eu estava fazendo uma temporada de enorme sucesso nessa casa de espetáculos de São Paulo, fiz na primeira e na segunda semana e quando chegou na terceira semana eu tive uma gripe, daquelas que acaba mesmo com a voz da pessoa! E no meu caso a gripe ficou embutida dois ou tres dias e no dia em que ela foi embora eu comecei a expectorar e fazer força prá tossir e no dia seguinte eu fiquei totalmente afônico, e o disco foi gravado nessas condições. Já o disco “Ao Vivo Mtv” foi gravado em dois dias, e eu tendo a desconsiderar o disco “Ao Vivo Amor à Arte”, e gravamos em São Paulo porquê estávamos em temporada em São Paulo, mas não foi nada em especial! Talvez porque aquilo estivesse fazendo um enorme sucesso, onde estava e depois o outro foi gravado no Rio também porquê a rigor é mais barato, você não tem que fazer um translado de 25 pessoas que trabalham naquele espetáculo, hospedar e etc, é mais fácil você trazer as poucas da Mtv que fazem o negócio

Carlos Garcia: Há muito tempo você não pegava um álbum assim? Não tem parceria, você regravou João Penca, regravou Gilberto Gil, e as outras 10 músicas são assinadas por você, errei?

Lulu Santos: Não as outras são assinadas por mim com exceção de Dim Dom, que é uma parceria com o Bernardo Vilhena

Carlos Garcia: Então são dez músicas do Lulu. A última vez que você fez isso foi no disco “Lulu”, de 1986

Lulu Santos: No Bugalu tinha muitas parcerias? Me ajude a lembrar, Garcia!

Carlos Garcia: Tinha sim, dentre elas a parceria com Marcos Valle

Lulu Santos: É verdade tinha Marcos Valle, Pedro Fortuna e tinha também Bernardo Vilhena. São muitas canções, rapaz, com parcerias ou sem elas, são 20 discos e pelo menos 12 canções em cada um deles, é uma quantidade incrível! Outro dia, há tempos atrás, eu lembrei de Papo Cabeça, voce lembra dela, foi do disco Honolulu?

Carlos Garcia: Claro que eu lembro, eu entrei no rádio tocando essa música, ela foi a minha segunda música, quando estreei no Rádio

Lulu Santos: “...Como vai você, hoje em dia espero que esteja tudo bem, eu andando tentando ver o lado zen” impressionante, eu tinha esquecido como é que se tocava essa canção, eu fui no meu site, estava indo disco por disco, toquei essa música e disse puxa essa música é ótima! Realmente eu começo a me esquecer!

Carlos Garcia: Pois é, essa pergunta era prá falar das parcerias, você já gravou com Antonio Cicero, Marcos Valle, são treze músicas com o seu parceiro de sempre, Nelson Motta!

Lulu Santos: Treze? Olha o número!! Nunca tinha dado conta disso!

Carlos Garcia: Mas nenhuma, até então, do dito rock Brasil, porquê isso assim? Você gosta da levada do que aconteceu de 82 prá cá, depois do estouro de “Você Não Soube me Amar”, da Blitz, depois da coisa do pop rock brasil? Você gosta de quem escreve?

Lulu santos: claro que eu gosto, gosto muito!

Carlos Garcia: não teve parceria com ninguém do pop-rock né?

Lulu Santos: No pop rock? Tive com o Herbert talvez! Não, eles gravaram a música “Assaltaram a Gramática”. Teve uma parceria em outra canção chamada Outra Beleza, que o Herbert e eu fizemos e que os Paralamas gravaram!

Carlos Garcia: Bom Lulu, nesse disco você foi escolher a música do Joâo Penca, “Pop Star”? Quando você escolheu a música deles você tinha essa intenção? Porquê João Penca? É uma banda “bem carioca” “para os cariocas”! Agora tem uma coisa interessante em você, as suas primeiras músicas e os seus maiores sucessos são dos anos 80 mas o maior sucesso comercial foi nos anos noventa!

Lulu Santos: É verdade, eu só fui vender 1 milhão de cópias de um disco com o Memê, “Eu e o Memê”! E também o fato de “Assim Caminha a Humanidade” Ter sido uma canção tão importante prá minha carreira, essa música foi de 94, então eu acho que essa coisa de anos oitenta é uma exemplificação. Tanto que um dos projetos que mais acalento para o futuro é lançamento de duas caixas com 20 discos, prá não ficar pesado principalmente no bolso. E tem um gancho legal, um como fez o nosso Roberto Carlos, de fazer uma caixa dos anos oitenta e uma caixa dos anos 90, e os dois vão ter que se dividir entre “Como Uma Onda”, “Assim Caminha a Humanidade” ou “Descobridor dos Sete Mares”.

Carlos Garcia: Essa regravação, do João Penca então, não tem nada a ver com os anos 80?.

Lulu Santos: Um pouquinho, e porque não? Eu acho que não tem o menor problema. É um pouco porque se está no ar esse pensamento, se estão regorjitando a década de 80 eu pelo menos tenho o privilégio de não ser uma regorjitação, eu estou continuamente na estrada desde aquela época. E prá mim é um pouco confortável e interessante de ter oportunidade de no meu patamar de vigência resgatar uma coisa nessa onda que a própria sociedade, por si, está querendo ver melhor agora.Eu não tenho nenhum problema que isso esteja associado ao ressurgimento da década de oitenta. Eu tenho uma ligação pessoal com os meninos do João Penca, participei dos 3 discos que eles fizeram e na realidade a canção nunca me abandonou eu sempre achei que em algum momento ía calhar dizer essa frase “ dizem que eu sou new wave demais”!

Carlos Garcia: Vamos ouvir então do grupo carioca João Penca, aqui ná Rádio costa Verde Fm, com Lulu Santos. Essa música é de 86, de um álbum bem bacana que tinha Romance em Alto Mar, Lágrimas de Crocodilo

“Psicodelismo em Ipanema, todo mundo fora do sistema”!

Carlos Garcia: Costa Verde Fm, a Rádio que tem Cara do Rio. Enquanto você estava ouvindo Pop Star, com Lulu Santos, ele estava falando comigo sobre cultura musical. Porque muito do que ele produziu foi minha cultura musical. Eu vou te fazer uma pergunta, quando foi que você se sentiu, pela primeira vez você algo e disse “como isso é bom, como música é legal. O que você ouviu que o emocionou?

Lulu Santos: Ah rapaz, a minha relação com música é quase de bebê, eu tenho uma memória incrivel. Eu lembro que com 4 anos de idade parava com uma moça que trabalhava lá em casa, na frente da vitrola tentando fazer o disco tocar rápido porquê a minha música favorita, que eu gostava, estava tocando devagar e aquilo me entristecia muito. O dia já estava chuvoso feio e triste e a minha música estava estranha, eu não entendia o que era e eu queria puxar o disco rápido. Então música é um pouco do entendimento que eu tenho de mim mesmo, porque é a coisa mais antiga na minha vida, é a coisa que traça o que eu sou hoje do que eu era quando bebê

Carlos Garcia: Eu acho que com essa sua dita “ocorrência” você me deu uma “salvada” porque eu sempre amei a música, lia tudo sobre música, até que entrei para o Rádio, aí você começa a ficar profissional, frio, já estava na segunda e indo prá terceira rádio, como Coordenador é uma coisa que já muda tua cabeça, você não é mais a mesma coisa. Eu fui assistir a um show seu em janeiro de 93 e até então não tinha sentido isso, nem no rádio, nem ouvindo música no rádio, nem trabalhando, em shows. Quando você começou a tocar fevereiro, era a turnê do disco “Mundo Cani”, foi na periferia do Rio de Janeiro, foi em um lugar chamado Santa Cruz, em janeiro de 93. Quando você começou a tocar Fevereiro eu me emocionei!

Lulu Santos: Porquê?.

Carlos Garcia: Não sei, não tem explicação

Lulu Santos: Estranho, porque não era música de rádio, música de trabalho

Carlos Garcia: Foi uma música que mexeu comigo absurdamente ao ponto de eu dizer pôxa, como vale à pena, como é bom estar aqui!

Lulu Santos: como é bom estar descobrindo as coisas. Sem essas coisas de pensar que você chegava a um patamar em que já descobriu e viu tudo!

Carlos Garcia: No coração, sabe aquela coisa de mexer e você pensar “porquê que estou assim”? Já tinha assistido a shows do Kid Abelha, Ultrage a Rigor, mas o seu show eu nunca tinha assistido

Lulu Santos: Foi o primeiro?.

Carlos Garcia: Foi, e aquilo marcou absurdamente ao ponto de eu começar a encarar, a partir dali, em janeiro de 1993, de recuperar o fôlego com música

Lulu Santos: Foi daquilo voltar a ser importante prá sua vida e não apenas prá vida profissional! E você não imagina, isso também ocorre periodicamente com a gente porque tem horas que a gente acha que já viu tudo, já viveu tudo e está ficando um pouco profissional de fazer aquilo, ainda que profissionalismo seja uma coisa que todo o mundo deva realmente correr atrás no seu ramo, na sua atividade, nunca se deve deixar que aquilo se transforme em uma forma de ceticismo porquê é muito ruim, porquê esse ceticismo vai impedir você de ter prazer, e ter aventuras, como você mesmo disse, que sentiu uma coisa dentro do coração!

Carlos Garcia: Lulu Santos aqui na rádio costa Verde Fm, vamos liberar Lulu Santos prá almoçar, está toda a equipe esperando. Lulu eu quero agradecer à sua presença aos estúdios da Costa Verde, pela primeira vez, te desejar boa sorte nessa turnê, eu acho o álbum um dos melhores, adorei Manhas e Mumunhas, gostei muito mesmo, assim como gostei de Gambiarra. Acho o disco muito bacana.

Lulu Santos: Bom, primeiro queria te dizer que foi mesmo um prazer , com sinceridade, conversar com você, porquê o interesse que você tem do que eu produzi, muitas vezes você até me corrigiu em alguns lances que eu não lembrava, em música é raro de se encontrar alguém assim e também a seriedade com que você faz isso. E parabenizar você como Coordenador da rádio Costa Verde pelo fato de ter tanta gente interessada em ouvir ao ponto de a rádio estar “do meio prá cima” entre as mais ouvidas no ranking das Rádio do Rio de Janeiro. Um beijo enorme prá quem está aí do outro lado, na Zona Oeste, eu sempre tive uma relação de proximidade, sempre estive tocando em Santa cruz, e em Jacarepaguá, estamos aí, obrigado a você mais uma vez!