
Cuba, o M-26 e Moncada
No
dia 26 de julho de 1953, em protesto contra a ditadura de Fulgêncio
Batista em Cuba, um grupo de patriotas comandado por Fidel Castro,
líder do Movimento 26 de julho, atacou o quartel de Moncada
na cidade de Santiago de Cuba, na Província do Oriente. Apesar
do fracasso, aquela ato foi o começo da revolução
cubana que terminou por derrubar o regime de Batista seis anos depois.
"Dentro
de poucas horas vocês serão vitoriosos ou derrotados,
mas, independentemente do resultado, este Movimento triunfará
(...) Vocês já conhecem os objetivos de nosso plano;
é um plano perigoso, e aqueles que me seguirem esta noite
terão que fazê-lo voluntariamente."
Fidel Castro a seus seguidores, madrugada do dia 26 de julho de
1953
Santiago
de Cuba, na Província do Oriente, é um lugar e tanto.
Fica num canto da ilha oposto à Havana, numa baia bem em
frente ao Mar das Caraíbas, distando por mar uns 250 quilômetros
da Jamaica e de São Domingo. Do seu ancoradouro é
que, em 1519, a pequena esquadra de Hernán Cortés
fez as velas para ir conquistar o México, justo o mesmo local
onde, quase quatro séculos depois, desembarcaram as tropas
ianques durante a guerra hispano-americana de 1898, para vir a por
fim ao império espanhol na América. No clima romântico
daquelas paragens, entre as areias caribenhas e a serra da Gran
Piedra, é que nasceu o bolero, levado ao mundo pela voz de
Bola de Neve, um elegantíssimo cantor negro de Santiago que
foi um espécie de Nat King Cole cubano. Gênero musical
esse que Ernesto Lecuona imortalizou com sua mais famosa composição
“Siboney” , nome de uma bela praia próxima a
Santiago.
Pois
foi ali, num sitio não muito distante do mar, a granjita
de Siboney, que no dia 26 de julho de 1953, Fidel Castro, então
um jovem advogado, cabeça do movimento rebelde, arrebanhou
a sua gente para lançar-se numa façanha aparentemente
impossível: derrubar a ditadura de Fulgêncio Batista.
No total eram 148 pessoas, entre eles duas mulheres, Melba Hernández
e Haydée Santamaria, e dois comunistas, o restante era do
Partido Ortodoxo , de moderada tendência nacionalista. Fidel
Castro os convencera em praticar um espetacular ato de repúdio
à supressão da Constituição de 1940,
que Batista substituíra, depois do golpe de 10 de março
de 1952, por uma fornada de mais de 200 artigos do seu regulamento
autocrático.
Cuba:
a reação contra Batista
O
ditador , de fato, lançara as bases de um estado bucaneiro,
no modelo daqueles que existiam na região caribenha na época
do auge da pirataria, nos séculos XVII e XVIII, voltado para
a jogatina, a exploração da prostituição
e para o acolhimento do dinheiro sujo arrecadado em outras partes
do mundo (especialmente os dólares vindos da máfia
americana) . Pessoalmente ele embolsava 30% dos cassinos do gângster
Mayer Lansky, seu parceiro na rede de hoteleira de Havana, enquanto
que dona Marta, a benemérita primeira-dama da ditadura, conformava-se
com 10% das casas de jogo de Santo Trafficante Jr. Além de
desmoralizar o país, Batista corrompeu os oficiais dos quadros
superiores das forças armadas convidando-os a que assumissem
o controle das boates e dos inferninhos dos principais pontos turísticos
da ilha. Tornara-os rufiões!
No universo do domínio ianque, à Cuba reservou-se
um papel bem específico: a ilha era o paraíso da contravenção.
Tudo o que um cidadão americano não podia consumir
livremente nos seus estados ele conseguia por lá: jogo, sexo,
bebida e drogas. Tudo à vontade e a preços risíveis,
tendo ainda como brinde poder baforar um Cohiba, charuto de preço
proibitivo em Nova Iorque.
Fazer de Santiago território livre
Fachada do quartel Moncada, hoje museu revolucionário
A escolha que o insurgentes fizeram de atacar simultaneamente dois
quartéis na Província do Oriente (o de “Moncada”
em Santiago de Cuba, e o “Céspedes” em Bayamo),
devia-se a que, bem sucedida a operação, formariam
ali um “ território livre”, separado do restante
da ilha. Para melhores garantias eles explodiriam a ponte sobre
o Rio Cauto, impedindo a chegada de reforços vindos da parte
ocidental da ilha pela estrada que passava em Bayamo. Bem posicionados,
reforçados pelas armas capturadas, o exemplo deles inspiraria
uma revolta geral contra Batista. A data escolhida, o 26 de julho,
combinava com o dia derradeiro do carnaval cubano, celebrado no
Dia dos Reis.
Até
um poeta levaram junto. Raul Gómez Garcia redigiu um trovejante
“ Manifesto de Moncada “, que além de denunciar
“ os crimes de sangue, a desonra e luxúria desenfreada”
, conclamava os cubanos a lutar contra aquele regime de corsários.
Fidel Castro, à frente de um cortejo de 16 carrões
carregados com sua gente mal armada, imaginou surpreender os soldados
pegos no torpor da ressaca. Uma parte da caravana com 55 atacantes,
rumou para Bayamo, a outra entrou pelas ruas de Santiago de Cuba
para chegar até o quartel de Mocanda, sede do 1º Regimento
de Infantaria, o “Maceo”. Aquela altura, por uma série
de pequenos acidentes, eles haviam se reduzido para 113 insurgentes.
Por
volta das 6 horas da manhã iniciou-se um tiroteio generalizado
na entrada dos portões da guarnição que, para
infelicidade dos seguidores de Fidel, não estava desatenta.
Logo a desigualdade do poder de fogo se fez presente. Os rebeldes
lutavam com armamento quase que caseiro, velhos rifles, revolveres
de calibre diverso, armas de caça e até uma espingarda
de cano serrado, enquanto tiveram que enfrentar, além dos
fuzis de guerra, metralhadoras ponto 30 e até uma ponto 50,
colocada no alto de uma torre do quartel atacado. Desse modo, de
nada serviu Fidel ficar incentivando os seus , com sua arma em riste
aos gritos de "Adelante, muchachos! Adelante!" (Tad Szulc
– Fidel, um retrato crítico, 1987, pág. 304).
O fracasso e a repressão
Em Bayamo o ataque saiu-se até pior, visto que não
conseguiram nem transpor as casas dos sentinelas, sendo logo detidos
e postos em fuga pelo intenso fogo dos soldados. Desbaratada a tentativa
de assalto, só lhes restou pegar os automóveis e tentar
escapar para o mais longe possível da vingança dos
militares. A reação do exército foi terrível.
Os aprisionados foram torturados e espancados até a morte.
O poeta Raul Garcia, antes de receber um tiro de misericórdia,
teve o rosto esmagado pelas coronhadas dos guardas.
Nos
dias seguintes, Batista, suspendendo as garantias de vida dos que
fossem presos, ordenou uma operação de captura e extermínio
dos rebeldes que haviam escapado, matando 69 deles. Fidel Castro,
rendido vivo seis dias depois quando dormia numa choupana, salvou-se
por um milagre de ter o mesmo destino. Quem poderia imaginar naquela
ocasião, no nascimento do libertário Movimento 26
de Julho, que ele, mais tarde, também iria tornar-se o tirano
da ilha que ele jurara algum dia libertar?
Fonte: http://educaterra.terra.com.br/educacao/
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