
Qual o segredo do vestibular: inteligência, esforço
ou sorte?
Neurologistas,
psicólogos, matemáticos e os próprios vestibulandos
respondem. Leia a seguir.
Conseguir
uma vaga nas melhores instituições de ensino superior
não é uma tarefa fácil. A concorrência
cresce barbaramente a cada ano e a oferta de vagas avança
em ritmo menor. Para se ter uma idéia, em 1999, 1.786.827
milhão de estudantes disputaram 894.390 mil vagas em todo
o País - 192 de instituições públicas
e 905 de particulares.
Para
conseguir uma vaga, muitos investem pesado nos estudos. Paula
Gabriela Marin Figueira, 16 anos, pretende prestar Medicina. A
paulista estuda no tradicional Colégio Bandeirantes, um
dos campeões em aprovação no vestibular -
cerca de 70% nas principais instituições de ensino
superior em 2001. Mas, por "garantia", matriculou-se
em um cursinho. "Anoto tudo o que os professores falam durante
as aulas, assim gravo melhor as informações",
afirma.
Maira
Teresa Lima Pereira, 22 anos, faz cursinho para conseguir uma
vaga em Medicina Veterinária. No ano passado, passou para
a segunda fase na Universidade Estadual de São Paulo (Unesp),
mas foi reprovada porque errou todas as questões da prova
de matemática. "Este ano eu não vou zerar porque
tenho estudado muito mais. Estou mais confiante. Desta vez eu
passo". Maira é mais uma estudante que abdicou das
horas de lazer para ficar mais tempo com os livros.
Mas
qual é o segredo para passar no vestibular? Horas exaustivas
de estudo sobre os livros, um quociente de inteligência
(Q.I.) alto ou sorte?
O
neurologista Ibsen Tadeo Damiani, professor da Santa Casa de São
Paulo e secretário da divisão de neurologia da Associação
Paulista de Medicina (APM), explica que os vestibulandos têm
que assimilar muita informação em um curto período
de tempo. E o problema é que muitos dados acabam se perdendo
pelo meio do caminho.
"Quando
estamos lendo, as informações visuais são
transmitidas ao córtex occipital e percorrem um longo caminho
até chegar ao lobo temporal", explica. "No processo,
há uma alteração na taxa de disparos químicos
entre os neurônios, as células que fazem a comunicação
de dados no cérebro. Essa é a memória de
curto prazo, que você usa rapidamente e esquece em seguida".
Isto
significa que para lembrar um dado duas semanas depois de tê-lo
captado na mente, é preciso convertê-lo em memória
de longo prazo. Esse trabalho fica a cargo do hipocampo, segundo
o médico. "Depois que os dados são integrados
aos circuitos do cérebro, o hipocampo descansa e quem trabalha
é lobo frontal, estrutura responsável pelo processo
de recordação. É ele que traz à tona
todas as informações que foram devidamente estocadas".
Em
termos práticos, para conseguir armazenar uma avalanche
de informações, é necessário ter motivação
e interesse na hora do estudo, conta Damiani. "Períodos
de muita ansiedade, estresse e depressão são as
principais causas da amnésia".
Mas
existe uma fórmula para ajudar o cérebro a armazenar
tantas informações? Rubens José Gagliardi,
neurologista e vice-presidente do departamento de neurologia da
Associação Paulista de Medicina (APM), diz que não.
"O importante é que o jovem conheça o seu limite
e adapte seu organismo para o horário que ele terá
mais rendimento. Estar descansado é fundamental no aprendizado.
Assim se evita qualquer situação adversa que comprometa
a atenção".
Este
é o caso do estudante Bruno Piotto Hespanhol, 17 anos,
que acorda às 6 horas todos os dias para estudar. "Funciono
de manhã. Gosto de estudar com silêncio", diz.
"Não basta ter um Q.I. elevado e não saber
manter a calma"
Quem
não faz muito esforço para aprender as matérias
é Herbert Sollmann, 17 anos, ex-aluno do Programa Objetivo
de Incentivo ao Talento (Point), voltado para superdotados. Ele
dispensa os simulados do cursinho e garante que não estuda
mais que quatro horas por dia.
Durante
o tempo em que se dedica aos livros, ouve música e assiste
televisão ao mesmo tempo. "Se eu estudar por muitas
horas, esqueço tudo o que li. Por isso, prefiro prestar
atenção às aulas porque assim memorizo grande
parte das informações". Sollmann é candidato
a uma vaga em Engenharia Mecânica na USP.
O
teste do quociente de inteligência (QI) usa a escala de
inteligência de Wechsler para avaliar o nível presente
da função intelectual. Este teste fornece um escore
de QI padronizado, de modo que 100 é o valor médio
esperado para qualquer idade, com desvio padrão de 15.
Para
o psicólogo Rubens Riveras Valverde o teste do Q.I é
um método questionável de se medir a capacidade
de raciocínio lingüístico, matemático
e lógico. Valverde explica que o sucesso no vestibular
está mais vinculado ao equilíbrio emocional do candidato.
"Não basta ter um Q.I. elevado e conhecer as matérias
sem saber manter a calma. Conscientizar-se de que é capaz
de aprender e discorrer qualquer assunto ajuda muito. Sem isso,
perde-se a calma e surge o famoso 'deu branco', uma tensão
nervosa que bloqueia o conhecimento e a inteligência",
diz.
O
psicólogo constata que a falta de controle emocional explica
o fato do aluno tido como "brilhante" não se
dar bem nos exames. Ele acredita que o sucesso no vestibular não
é exclusividade do gênio ou do conhecido "CDF".
"A força de vontade faz com que muitos adolescentes
que não são considerados inteligentes convertam
esse sentimento em capacidade de passar em uma prova", diz.
"Do
ponto de vista matemático, é praticamente impossível
passar no vestibular só chutando"
Mas
e aquela "fezinha", conta na hora da prova? Fábio
Eiji Arimura, 16 anos, estudante do segundo ano do ensino médio
diz que sim. Ele foi contemplado com seu nome na lista dos aprovados
da Fuvest 2001, como treineiro em Ciências Biológicas.
Arimura acredita que o segredo é saber chutar. "Não
sou um aluno exemplar. Nem sei como eu passei no concurso. É
sorte", diz.
O
matemático Jorge Oishi, da Universidade Federal de São
Carlos (UFSCar), não acredita muito neste história.
O especialista calculou para o Terra quais seriam as chances de
um candidato que não sabe absolutamente nada passar no
vestibular através do "chutômetro", em
uma prova de múltipla escolha com cinco alternativas.
"Não
importa a alternativa escolhida, a probabilidade de um aluno acertar
no chute é de 20%. Para acertar duas questões, a
chance diminui para 4% (1/5 x 1/5= 1/25 e 1/25 x 100) e para acertar
três, fica ainda mais difícil: 0,8%", expliuca.
Oishi
esclarece que para conseguir 118 pontos na Fuvest, por exemplo,
a probabilidade é 1/5 elevado a 118. O resultado: 3,32307
E-83 (uma seqüência de oitenta zeros e um três).
"Isso dá a idéia da dificuldade. É praticamente
impossível passar no vestibular chutando do ponto de vista
matemático. Para quem não sabe nada, chutar ou resolver
são quase equivalentes".
Mas
a estatística do matemático não é
tão pessimista assim. "É claro que se o candidato
chutar apenas algumas questões e souber a maioria, a coisa
muda de figura. Ele pode ficar com duas alternativas, o que garante
uma probabilidade de 50% de acerto", conclui.
Independentemente
de inteligência, esforço ou sorte, a maior parte
dos especilistas afirma que a única solução
para passar nas provas do vestibular é estudar. E manter
a calma. Autoconfiança, motivação e estratégia
também são decisivos para o sucesso.
Na
hora da prova
Qualquer
dor de cabeça ou indisposição estomacal pode
destroçar o desempenho na hora da prova. Por conta disto,
a nutricionista Mônica Inez Elias Jorge, da Universidade
de São Paulo (USP), aconselha que os estudantes prestem
atenção à alimentação no dia
do exame de vestibular.
"A
falta de nutrientes pode provocar falta de disposição,
dificuldade de concentração, apatia, dificuldade
de leitura, entre outros problemas", revela.
Nos
dois dias que antecedem os exames os candidatos devem evitar alimentos
ricos em gordura, diz a especialista. "Estes alimentos possuem
um tempo maior de digestão e pode causar desconforto e
sonolência. Entre eles estão a famosa feijoada, molhos
a base de creme de leite, carnes gordurosas".
Na
hora da prova, uma pequena barra de chocolate serve para fornecer
energia e melhorar a disposição. O candidato pode
levar também uma barra de cereais, um suco de fruta de
caixinha e principalmente, uma garrafa de água de meio
litro. A manutenção da hidratação
é fundamental, aconselha
Técnicas
para melhorar a memorização
Antes
de "rachar" a cabeça, saiba como você pode
melhorar a memorização e evitar o famoso "deu
branco". Veja as dicas do neurologista Ibsen Tadeo Damiani,
professor da Santa Casa de São Paulo e secretário
da divisão de neurologia da Associação Paulista
de Medicina (APM):
-
Existem muitas técnicas mentais. Uma forma de estimular
a memória é utilizar ao máximo a sua capacidade
mental, aprendendo novas habilidades com as quais não teria
nada em comum com o seu estilo de vida.
-
É impossível prestar atenção no estudo
se você estiver tenso ou nervoso. É importante relaxar.
Uma dica: prenda a respiração por dez segundos e
vá soltando o ar lentamente.
-
Algumas vitaminas são essenciais para o funcionamento apropriado
da memória: tiamina, ácido fólico e vitamina
B12. São encontradas no pão e cereais, vegetais
e frutas.
-
A água ajuda a manter bem o funcionamento dos sistemas
da memória, especialmente em pessoas mais velhas. A falta
de água no corpo tem um efeito direto e profundo sobre
a memória. A desidratação pode levar a confusão
e outros problemas do pensamento.
-
É fundamental que se permita sono suficiente e descanso
do cérebro. Durante o sono profundo, o cérebro se
desconecta dos sentidos e processa, revisa e armazena a memória.
A insônia leva a um estado de fadiga crônica e prejudica
a habilidade de concentrar-se e armazenar informações.
Fonte: http://educaterra.terra.com.br/vestibular/dicas.htm