
A última vida de Yasser Arafat
A
morte de Yasser Arafat, líder histórico do movimento
palestino conhecido como "o homem das sete vidas", possui
um significado político importante. Nascido em 1929, provavelmente
em Gaza, Mohammed Abdel Raouf, codinome Yasser Arafat, lutou na
guerra de 1948-49, que inviabilizou o plano de partilha da ONU
para a Palestina (o qual criaria um Estado judaico e outro árabe-palestino)
e resultou na criação do Estado de Israel. Exilado
no Egito graduou-se em Engenharia na Universidade do Cairo e trabalhou
como engenheiro no Kuwait no fim dos anos 1950. Juntamente com
palestinos aí residentes, criou a organização
nacionalista Al Fatah, com o objetivo de lutar pela libertação
da Palestina. Em 1964 a Liga Árabe criou a OLP (Organização
para Libertação da Palestina) como coordenação
dos movimentos palestinos.
Na
época os territórios palestinos remanescentes, Gaza
e Cisjordânia (com Jerusalém oriental), haviam sido
anexados pelo Egito e Jordânia, respectivamente, e a OLP
não passava de um organismo subordinado aos Estados árabes.
Com a derrota de 1967 e a perda desses últimos territórios,
o quadro mudou e Arafat assumiu a liderança da OLP em 1969.
Apoiado nos palestinos refugiados e com recursos de alguns países
árabes, ele passou a comandar a luta armada contra Israel.
Isso o colocou em choque com a Jordânia, que desarmou os
guerrilheiros palestinos através do massacre do Setembro
Negro (1970). A partir de então Arafat viveu mudando de
lugar constantemente, alternando métodos de luta de guerrilha
e iniciativas diplomáticas.
O
controle das diversas facções palestinas que integravam
a OLP, algumas das quais empregavam métodos terroristas,
com atentados e desvio de aviões, não era uma tarefa
fácil. Mas Arafat foi se impondo numa posição
centrista. Em 1974 discursou na ONU, dizendo que os palestinos
tinham um fuzil numa mão e um ramo de oliveira (símbolo
da paz) na outra, e que dependia de Israel qual das duas seria
usada (ou seja, aceitação ou não de um Estado
palestino). O problema é que, na época, isso implicava
em negar o direito à existência de Israel. Arafat
em suas lutas chocou-se não apenas com Israel, mas também
com governos árabes e facções palestinas
rivais, tendo que fugir várias vezes, como do Líbano
nos anos 80, e escapado a vários atentados contra ele.
Seu nome virou um mito.
Após
o esmagamento da primeira Intifada, Arafat apoiou o Iraque em
1990, tendo perdido quase todo apoio financeiro dos países
do Golfo e mergulhando sua organização numa crise
sem precedentes. Mas o processo de paz, aberto com o Acordo de
Oslo em 1993, resgatou sua figura como interlocutor interessante
para Israel, num momento em que surgia, fora da OLP, grupos islâmicos
radicais, como o Hammas. Arafat e o primeiro ministro israelense,
Rabin, ganharam o prêmio Nobel da Paz pelo acordo firmado.
Arafat transformou-se no líder da Autoridade Nacional Palestina,
passando a viver dentro do território palestino, tendo
reconhecido o direito à existência de Israel e reivindicando
os territórios da Cisjordânia e Gaza para o futuro
Estado palestino, em penosas negociações.
Mas
o assassinato de Rabin por um extremista judeu e o retorno do
Likud ao poder em Israel, levou a um confronto que teve seu apogeu
no cerco ao quartel general de Arafat, em meio a atentados suicidas
e retaliações sangrentas. A mobilização
da comunidade internacional manteve o líder palestino intocável,
mas num quadro de grande tensão, em que ele foi perdendo
o controle sobre as facções palestinas. Ao mesmo
tempo, seu staff era acusado de autoritarismo e corrupção.
Sua doença e morte devem desencadear uma onda de exaltação
palestina, em meio a complicadas negociações por
sua sucessão (daí a prolongada falta de informações).
A
rejeição do governo israelense a Arafat deve-se
ao fato de ele ser uma figura histórica do movimento palestino,
que carrega consigo reivindicações mais amplas.
Um novo líder fraco, provavelmente teria de negociar a
partir da difícil situação atual, com reivindicações
mais modestas. Mas a rejeição é, sobretudo,
psicológica. Contudo, politicamente é difícil
encontrar um negociador palestino aceito pela maioria das facções,
mas seguramente Israel teria mais boa vontade em negociar com
um sucessor. Assim, teriam um problema resolvido para poder desencalhar
o processo de paz e legitimariam a retirada de Gaza. Mas por outro,
Arafat, mesmo morto, continuará sendo uma referência,
sobretudo se for enterrado em Jerusalém, pois criaria um
ponto de peregrinação e potencializaria a reivindicação
sobre a metade leste da cidade. Se Israel negar, estaria aberta
uma nova crise. De qualquer maneira Arafat, o homem das sete vidas,
continuará sua luta mesmo após a morte.
Fonte: http://educaterra.terra.com.br/educacao/