ITAGUAÍ em 1849
Digitalização de documentos permite acesso via Internet
Há menos de cinco anos, quem quisesse pesquisar a documentação
oficial do Rio de Janeiro e do país, tinha que peregrinar pelos arquivos,
bibliotecas e repartições públicas.
Era preciso dispor de tempo, contar com a sorte e com a boa
vontade de arquivistas, bibliotecários e funcionários públicos.
As coleções, quase sempre incompletas, obrigava o pesquisador a
visitar diversas instituições, perdendo tempo, dinheiro e até mesmo a
paciência.
Com a Internet e com o surgimento de programas de digitalização
de documentos, como o “Latin American Microform Project (LAMP)”, é possível,
não apenas fazer a leitura de relatórios oficiais, e consultar documentos
publicados há mais de 150 anos, como até mesmo reproduzi-los no próprio
ambiente de trabalho doméstico.
O “LAMP” foi patrocinado pela Fundação Andrew W. Mellon para
produzir imagens digitais de séries de publicações emitidas pelo Poder
Executivo do Brasil e pelos governos das províncias, facilitando assim a sua
utilização por pesquisadores e prestando apoio às pesquisas latino
americanas.
Informações sobre Itaguaí, por exemplo, podem ser consultadas
nos “Relatórios dos Presidentes da Província do Rio de Janeiro”, de 1836 até
1930, no “Almanak Administrativo, Mercantil e Industrial do Império do
Brasil”, também conhecido como “Almanak Laemmert”, de 1844 até 1889, bem
como nos “Relatórios Ministeriais”, de 1821 até 1960.
Como seria, por exemplo, o Município de Itaguaí, há 160 anos?
Pelo “Almanak Laemmert”, edição de 1849, a diferença começa pela
grafia do nome: “Itaguahy” e não Itaguaí, que detinha o status de “Villa de
São Francisco Xavier de Itaguahy”.
A Câmara Municipal era composta por sete vereadores, presididos
pelo Comendador Antonio Rodrigues de Azevedo, que era chamado de
“comendador”, porque possuía a comenda conhecida como “Ordem da Rosa”, no
grau de Oficial, além disso, por ser um dos negociantes mais importantes de
Itaguaí, o Comendador encabeçava a lista dos Juízes de Paz, integrada por
José Pinto Tavares, Dr. Raymundo Antonio Teixeira e Francisco Xavier
Teixeira, todos também vereadores.
Os demais vereadores eram Manoel Martins do Couto Reis,
negociante no “Curato do Bananal”, que hoje corresponde ao Município de
Seropédica, e Miguel José Coelho da Silva, que no ano seguinte, 1850,
aparece no “Almanak” como escrivão do júri, no Juizado de Direito da
Comarca.
Além dos juízes de paz anteriormente citados, que eram
escolhidos entre pessoas de prestígio na Vila, com atribuições para conhecer
e julgar pequenas demandas havia, em Itaguaí, o Juizado de Direito,
presidido por Antonio Manoel Fernandes Júnior, cavaleiro da Ordem de Cristo,
e o Juizado Municipal e de Órfãos, presidido por Luiz Francisco da Câmara
leal.
Na Promotoria encontrava-se Antonio Gomes de Araújo e o delegado
de polícia era João José de Andrade Pinto Filho, tendo como subdelegado
Antonio José de Oliveira Sampaio.
Em 1849, o Município de Itaguaí possuía, além da Vila de São
Francisco Xavier, que hoje corresponde à parte central da cidade, a
Freguesia de São Pedro e São Paulo, em Ribeirão das Lajes, e o Curato do
Bananal, que hoje, como já foi dito, corresponde ao Município de Seropédica.
A produção do café era a principal atividade comercial de
Itaguaí, conclusão que pode ser tirada considerando o grande número de
cafeicultores que aparecem listados nas edições do “Laemmert”, a partir de
1850.
Além disso, consultando o “Relatório do Vice-Presidente da
Província do Rio de Janeiro”, o Comendador João Pereira Faro, de 1850,
verificamos pelo “Mapa do café exportado”, entre 1848 e 1849, que saíram dos
portos de Itaguaí, 421.102 arrobas (cada arroba corresponde a cerca de 14,7
kg).
Há destaque também para o grande número de negociantes,
produtores de aguardente e de açúcar, além de oficinas variadas, que
confirmam o quanto a cidade de Itaguaí era expressiva em toda a província do
Rio de Janeiro, já em 1849.
No Relatório de 1850, há também um interessante texto sobre a
“Criação do Bicho da Seda em Itaguaí” e informações sobre as obras da
Estrada Geral de Itaguaí” e da “Estrada do Presidente” que, segundo o texto,
“há de vir a ser uma das de maior importância da província, tem de começar
na Villa de Itaguahy, subir a serra deste nome pelo logar chamado Catumby,
atravessar o município de Pirahy, passando por dentro d’esta vila e da
povoação do Arrozal, e os municípios da Barra Mansa e Rezende até a serra do
Picú.” (...).
Os “Relatórios dos Presidentes da Província” também servem para
mostrar as disputas políticas e demandas que ocorriam na então Vila de
Itaguaí durante o século XIX. Um dos temas controversos, dos quais falaremos
em outra oportunidade, é o da construção e utilização do “Canal de
Itaguahy”, envolvendo o comendador Francisco José Cardoso e João Carlos
Mariz Sarmento, proprietário do trapiche “Barroso”, que reivindicava a
utilização do canal ao governo provincial.
Sinvaldo do Nascimento Souza
Professor de História da Cultura
Curso de Turismo
Faculdade Machado de Assis
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